Mostrando postagens com marcador Se o rádio não toca.... Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Se o rádio não toca.... Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de agosto de 2011

Se o rádio não toca... (Parte 3)

Existem músicas em que criamos tanta identificação que por um instante chegamos a se perguntar “Porque não tive essa ideia antes?”, ou até para os mais ambiciosos é aquela sensação de querer ter sido o compositor daquela letra. Comigo é assim, há músicas que retratam de forma bem clara algo que sinto ou penso. Muitas vezes servem até de apoio para aprimorar e desenvolver de forma mais objetiva certas ideias.
            Ouvindo uma música da banda Móveis Coloniais de Acaju, chamada “Cego”, começava a ter algumas ideias pulsantes na minha cabeça. E volta e meia essa música voltava a ecoar nos meus pensamentos. Eu parava e lia a letra. E mais ideias surgiam. E de repente eu percebi que a letra pode ser vista de diversas formas. Ela é tão subjetiva que, talvez, seja exatamente essa mensagem que ela queira passar: Como a gente enxerga o mundo? Como percebemos as coisas ao nosso redor? O que eu enxergo é o mesmo que você?        
            Existem tantas formas de entender o mundo, porque seria diferente com essa música?
            A música traz questionamentos de um cego sobre o que realmente é o certo, se é que existe o certo. Será que o que eu enxergo é mesmo o que é? Quantas vezes você fecha os olhos para coisas erradas? Será que você percebe mesmo o que está acontecendo?!

Eis a letra:

Quando vi, parado ali,
um cego a se questionar porque
não via só a luz do sol
como a cor do céu.

Direcionou o olhar a mim
quando evitava o encontro ao seu.
E com tristeza no falar
também me perguntou:
"Será mesmo, realmente
amarelo o sol, e azul o céu.
Por que não ser lilás, vermelho
Ou quem sabe seja apenas som?"

Agoniado ao pensar
no que o cego estava a falar
Olhos azuis a escurecer
Meu Deus, o que vai ser?

Sentei, chorei e compreendi
que não havia só um cego ali
E perturbado ao dizer,
escute aí você:
"Quem é que não enxerga aqui?
Será eu ou você que não percebe?"

            Vivemos tão focado no nosso mundinho, em nossas verdades, que nos esquecemos de parar e fazer questões simples como essas. Abrir a mente para coisas novas, para novas ideias. Surpreender-se mais com o mundo. Deixar de lado o orgulho e a prepotência. Só assim estaremos mais dispostos a perceber e corrigir nossos erros. Além disso, ao compreender que cada um tem uma visão do mundo diferente da sua, você passará a tratar a sua opinião não mais como uma verdade absoluta, mas sim uma verdade subjetiva. Como diria Raul – pra não perder o costume – “Que o mel é doce, é coisa que me nego a afirmar. Mas que parece doce, eu afirmo plenamente”.
            Enfim, acredito que acima de tudo é necessário tentar ao máximo quebrar qualquer paradigma e verdade, e ser mais questionador. Não adianta fechar os olhos pra certos problemas que envolvem a sociedade. Nós somos a sociedade! É problema de todos. Cabe a nós solucioná-los. Mas, vivemos percebendo coisas tão irrelevantes a nossa volta, que acabamos perdendo o dom de questionar. E as perguntas acabam sendo as erradas. E o foco acaba sendo outro. E o problema maior acaba não sendo resolvido. E cá estamos sendo indagados, “Quem é que não enxerga aqui? Será eu ou você que não percebe?".

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Se o rádio não toca... (Parte 2)

Lá vou eu citar mais um baiano maluco e genial. Dessa vez peguei uma música de Tom Zé pra servir de referência para algumas coisas que são válidas serem escritas e espero que lidas também.
Ouvindo a música Identificação do Tom Zé, fiquei pensando como a nossa vida é regrada através dos números, somos todos classificados, catalogados. Não querem saber meu nome, perguntam-me o CPF. Num feriadão anunciam o número de acidentes, o número de mortos. Pouco importa quem morreu, tudo acaba virando estatísticas. “E eu o que faço com esses números?”, cantaria Humberto Gessinger.
Classifica-se o melhor aluno pela nota, o melhor carro pelo preço. Essa mania de querer quantificar tudo, de querer analisar uma pessoa através de números, de impor para todos o que é o melhor, o que é o mais bonito.
A música de Tom Zé enfatiza de forma crítica e ao mesmo tempo satírica um pouco disso que eu falei. Ele coloca através de números suas emoções, as coisas boas e ruins que acontecem ou que ele tem que engolir de alguma forma e no seu dia a dia.

“Títulos protestados, 7
Impulsos de medo, 1.106
Sintomas neuróticos, 36
Horas semanais de catequização pela TV, 16
(...)
Impulsos de amor, de amor, 3
Propaganda consumida, 1.106
Alegrias, alegriazinhas espontâneas, 2
Idas ao banheiro para atividades diversas, 36”

            A música critica também o estresse generalizado, o medo do que se vê na TV, do que ocorre na rua, no trânsito. Neurose por tudo. Está se tornando algo normal ser estressado. O que me chama atenção é que às vezes parece haver competição em torno disso, “Ah, mas o meu trabalho é muito pior.”, “Os meus problemas são bem maiores.”. Estão querendo medir até estresse! Por quê?! Será que a tranquilidade é algo inalcansável?! Será que existe ainda tranqüilidade? E a felicidade? Cada vez mais nos vendem felicidade, nos fazem engolir inúmeras propagandas, nos mostram que felicidade é correr ao ar livre por um gramado num dia de sol com a família, usando qualquer merda que eles queiram vender. Eu quero minhas alegriazinhas espontâneas, por menos que sejam, mas que são muito mais sinceras que qualquer outro tipo de felicidade comercial. Quero saber separar o que me faz bem e o que me faz mal. Quero ter um tempo pra mim, pra sossegar, refletir, se desligar de tudo, é importante pra alma e pra mente.
            Mas voltando pra música, Tom Zé relata que o tempo previsto de vida para um cidadão seria 600 mil horas de vida e a partir daí ele vai destacando problemas comuns em nosso dia a dia como o “consumo de alimentos envenenados, refrigerantes, remédios e enlatados”, o “desgosto que se padece naquela fila do INSS”, além de todos os desejos não correspondidos e todos os medos freqüentes. E a cada vez que ele descreve um desses problemas ele fecha a frase com “1125 horas”, que seria um abatimento dessas 600 mil horas de vida. E deixo então o Tom Zé finalizar esse texto com o que restou da música:

“Abate aqui
Abate ali
Abate isto
Abate aquilo
E jaz pela cidade
Um zumbi sem sepultura
Classificado, numerado
É o cidadão bem comportado”

            Demais a música! Confere aí:

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Se o rádio não toca...


Como diria o escritor e poeta francês Victor Hugo “A música é o barulho que pensa”. É também o barulho que nos faz pensar, refletir, mudar. É mais que uma terapia. É arte. E a arte é o grau mais alto da capacidade humana, como diria Tom Zé.
A música conta muito a história e a cultura de um povo. Identifica épocas, marca gerações, cria ídolos, eterniza gênios e mitos.
Mas porque eu estou tocando no assunto música? A partir de hoje eu vou começar a postar algumas letras que me chamam atenção pela sua estrutura e pela sua história dentro um contexto. E a partir daí, espalhar um pouco mais dessa magia que a música nos traz.
Hoje eu estava ouvindo uma música de Raul Seixas, pouco famosa, mas com uma mensagem direta e sutil. Ela se chama “Réquiem para uma flor” e como na maioria das músicas de Raul a mensagem vem através de metáforas. Ela começa assim:

“Fruto do mundo
somos os homens.
Pequenos girassóis
os que mostram a cara,
e enorme as montanhas
que não dizem nada”

            Eis aí um retrato simples e poético da visão de Raul sobre a humanidade. Alguns que sonham em mudar algo no mundo e que dão a cara a bater por essa mudança, estes representados pela figura de um girassol. São geralmente os loucos, os diferentes, os utópicos, os grandes pensadores, que se diferenciam e se destacam das grandes montanhas que não dizem nada.
            Mas ao mesmo tempo, alguns desses girassóis podem não florescer devido a grande sombra que as montanhas fazem. A pressão da sociedade, a repressão dos conservadores, o modo como nossas crianças aprendem a perder o senso criativo e tantas outras questões que implicam em fazer alguns girassóis não passarem de mais uma planta qualquer nessa grande montanha. Como o título mesmo diz réquiem para uma flor. O termo réquiem seria uma missa composta especialmente para um funeral, nesse caso a morte da flor, a morte de mais um girassol.
            Por fim, Raul fecha com uma frase em espanhol que diz “Incapaces los hombres que hablam de todo e sufrem callados”. Traduzindo: “Incapazes os homens que falam de todos e sofrem calados”. Essa frase complementa o que ele quis dizer nos primeiros versos, fechando esse poema de forma genial. Representa a inveja das montanhas em ver o belo girassol florescer. Algo tão comum no nosso cotidiano, em que se vêem as pessoas julgando a felicidade dos outros, querendo definir o que é certo e errado, sem se dar conta no rumo que a sua própria vida está seguindo.
            Façamos que se floresçam mais girassóis! Plantemos a criatividade, a arte, a cultura, o bom senso e esperemos por um mundo mais florido e melhor.


Pra quem quiser ouvir, segue abaixo a música: