Existem músicas em que criamos tanta identificação que por um instante chegamos a se perguntar “Porque não tive essa ideia antes?”, ou até para os mais ambiciosos é aquela sensação de querer ter sido o compositor daquela letra. Comigo é assim, há músicas que retratam de forma bem clara algo que sinto ou penso. Muitas vezes servem até de apoio para aprimorar e desenvolver de forma mais objetiva certas ideias.
Ouvindo uma música da banda Móveis Coloniais de Acaju, chamada “Cego”, começava a ter algumas ideias pulsantes na minha cabeça. E volta e meia essa música voltava a ecoar nos meus pensamentos. Eu parava e lia a letra. E mais ideias surgiam. E de repente eu percebi que a letra pode ser vista de diversas formas. Ela é tão subjetiva que, talvez, seja exatamente essa mensagem que ela queira passar: Como a gente enxerga o mundo? Como percebemos as coisas ao nosso redor? O que eu enxergo é o mesmo que você?
Existem tantas formas de entender o mundo, porque seria diferente com essa música?
Existem tantas formas de entender o mundo, porque seria diferente com essa música?
A música traz questionamentos de um cego sobre o que realmente é o certo, se é que existe o certo. Será que o que eu enxergo é mesmo o que é? Quantas vezes você fecha os olhos para coisas erradas? Será que você percebe mesmo o que está acontecendo?!
Eis a letra:
Quando vi, parado ali,
um cego a se questionar porque
não via só a luz do sol
como a cor do céu.
um cego a se questionar porque
não via só a luz do sol
como a cor do céu.
Direcionou o olhar a mim
quando evitava o encontro ao seu.
E com tristeza no falar
também me perguntou:
quando evitava o encontro ao seu.
E com tristeza no falar
também me perguntou:
"Será mesmo, realmente
amarelo o sol, e azul o céu.
Por que não ser lilás, vermelho
Ou quem sabe seja apenas som?"
amarelo o sol, e azul o céu.
Por que não ser lilás, vermelho
Ou quem sabe seja apenas som?"
Agoniado ao pensar
no que o cego estava a falar
Olhos azuis a escurecer
Meu Deus, o que vai ser?
no que o cego estava a falar
Olhos azuis a escurecer
Meu Deus, o que vai ser?
Sentei, chorei e compreendi
que não havia só um cego ali
E perturbado ao dizer,
escute aí você:
que não havia só um cego ali
E perturbado ao dizer,
escute aí você:
"Quem é que não enxerga aqui?
Será eu ou você que não percebe?"
Será eu ou você que não percebe?"
Vivemos tão focado no nosso mundinho, em nossas verdades, que nos esquecemos de parar e fazer questões simples como essas. Abrir a mente para coisas novas, para novas ideias. Surpreender-se mais com o mundo. Deixar de lado o orgulho e a prepotência. Só assim estaremos mais dispostos a perceber e corrigir nossos erros. Além disso, ao compreender que cada um tem uma visão do mundo diferente da sua, você passará a tratar a sua opinião não mais como uma verdade absoluta, mas sim uma verdade subjetiva. Como diria Raul – pra não perder o costume – “Que o mel é doce, é coisa que me nego a afirmar. Mas que parece doce, eu afirmo plenamente”.
Enfim, acredito que acima de tudo é necessário tentar ao máximo quebrar qualquer paradigma e verdade, e ser mais questionador. Não adianta fechar os olhos pra certos problemas que envolvem a sociedade. Nós somos a sociedade! É problema de todos. Cabe a nós solucioná-los. Mas, vivemos percebendo coisas tão irrelevantes a nossa volta, que acabamos perdendo o dom de questionar. E as perguntas acabam sendo as erradas. E o foco acaba sendo outro. E o problema maior acaba não sendo resolvido. E cá estamos sendo indagados, “Quem é que não enxerga aqui? Será eu ou você que não percebe?".